A Hipocrisia das Apostas: Governo Culpa 'Bets' Pelo Endividamento, Mas Ignora o Próprio Descontrole Fiscal
A Narrativa do Endividamento: Quem é o Verdadeiro Culpado?
Nos últimos meses, o governo federal tem engrossado o tom contra o mercado de apostas esportivas, popularmente conhecidas como "Bets". A narrativa oficial afirma que essas plataformas são as grandes responsáveis pelo crescente endividamento das famílias brasileiras. No entanto, uma análise mais profunda e menos politizada dos fatos revela uma profunda hipocrisia nessa postura do Estado.
Enquanto os holofotes e as críticas se concentram nas empresas de apostas, o próprio governo se isenta de qualquer responsabilidade sobre o descontrole das contas públicas, um fator que assola o Brasil e tem impactos diretos e cruéis na vida da população.
A Fome do Leão: Legalização com Foco na Arrecadação
Um dos pontos mais contraditórios dessa narrativa é o fato de que foi o próprio governo que acelerou e incentivou a regulamentação e legalização das "Bets". A motivação principal, como ficou claro durante os debates no Congresso e pela equipe econômica, nunca foi unicamente a proteção do cidadão, mas sim o potencial bilionário de arrecadação de novos impostos.
Transformar um mercado antes não regulado em uma máquina de recolher tributos foi a grande vitória comemorada pela Fazenda. Contudo, assim que o desgaste político do crescente endividamento bateu à porta, o governo rapidamente passou a transformar sua "galinha dos ovos de ouro" tributária no grande vilão absoluto da responsabilidade financeira das famílias, tentando lavar as próprias mãos limpas.
O Verdadeiro Imposto Oculto: A Inflação e o Descontrole Fiscal
Na prática, se as apostas e jogos de azar podem impactar negativamente uma parcela da população sem educação financeira, é o descontrole crônico das contas públicas que realmente pune, de maneira silenciosa e irrestrita, todos os cidadãos do país.
Déficits públicos sequentes, gastança não prioritária e expansão da dívida geram imediata incerteza no mercado, fuga de dólares, desvalorização do Real e uma pressão implacável sobre a inflação. A inflação é, sem dúvida, o imposto mais cruel que existe. Ela desponta silenciosamente, não precisa ser votada no parlamento e destrói de uma vez por todas o poder de compra da base da pirâmide (que gasta a maior parte da sua renda com o básico: comida e remédio).
Para combater a força dessa alta de preços gerada pela indisciplina fiscal, o Banco Central acaba sendo obrigado e manter a taxa de juros (Selic) altíssima. Juros nas alturas tornam o crédito caro a patamares proibitivos, que esmaga os empresários e também endivida o rotativo do cartão e o cheque especial da população comum.
Conclusão: A Cortina de Fumaça
Deste modo, entende-se o porquê de existir um interesse enorme da classe política de inflar o discurso contra as apostas e promover uma regulação "protetiva": é uma forma útil e muito conveniente de delegar a própria culpa a um bicho-papão do momento que desvia a atenção da raiz do mal estagnante do Brasil.
Incentivar bons hábitos financeiros e uma relação saudável das pessoas com o jogo e as finanças pessoais são sim responsabilidades de uma boa estrutura política e social. Porém, transferir inteiramente o caos da inflação, do PIB arrastado e do bolso apertado a um mercado privado recém tributado é o supra-sumo da transferência de culpa de um sistema que se recusa a olhar no espelho. O Estado continuará arrecadando os lucros bilionários sobre este entretenimento, e, claro, culpabilizará os cidadãos por não controlarem suas finanças enquanto ele, o Leviatã, aumenta o seu déficit no ritmo que lhe convém.
(Fim do Artigo)